E eis que novamente surge os últimos meses, últimas semanas de um ano infernal. Nunca pude entender ao certo o que se passa na mente de cada pessoa que sorri contente com a expectativa de um novo ano, te juro que nunca pude realmente compreender tudo isso. Será que é a expectativa de presentes? Roupas novas, bugigangas pra colecionar ou qualquer relés objeto que surja em sua mão? Claro, essa é apenas uma hipótese, estou longe de insinuar que todos não passam de malditos capitalistas que sugam as pessoas próximas em busca de mais e mais coisas que lhe seriam totalmente inúteis em suas meras vidas.
Sim, sou uma das poucas (talvez nem tão poucas assim) pessoas que detestam essa época do ano. Sabe, essa felicidade toda, exagerada, que nos fazem sentir como se tudo estivesse perfeitamente bem. Bem onde? No país? No mundo? Ninguém passando fome ou os poucos bens que conseguiram durante uma vida de árduo trabalho durante longos anos pra conseguir sua casa própria sendo perdidos? Claro, para todos os ignorantes, ta tudo bem, ta tudo ótimo.
Devo ser sincera ao dizer que pra mim essa questão toda de paz e igualdade mundial não me é de todo importante e, sendo mais sincera ainda, quero que o mundo se exploda, mas a sério: Pra quê toda essa felicidade exacerbada? Não é nada mais do um ano se passando, festas onde todos ficam bêbados e comem demasiadamente, igualando-se a porcos. Pois bem, comemora-se o que no Natal? Oras, não são os presentes? Não? Oh, claro. Nascimento de Jesus, filho de “deus”. Não passa de hipocrisia. Mas claro que não estou aqui pra julgar ninguém, longe disso. Já comemorei essa data festiva durante muitos anos e era feliz (com meus presentes), assim como na virada do ano, onde eu passava pedindo para todos os adultos presentes para que me dessem o bom e esperado “bom princípio de ano novo”, confesso que cheguei a faturar bastante com isso, muitos doces no outro dia e muitas cáries.
Mas, pra ser ainda mais direta depois de toda essa possível “introdução”, eu não sei o que acontece exatamente comigo nessa determinada época do ano. Eu que sou sempre sorridente, animada, me divirto me embriagando com meus amigos na nossa tão aclamada “praça central” da cidade, sempre tão segura de mim..., fico perdida. Confesso que só me dei conta de que essas malditas festas hipócritas de final de ano estavam se aproximando quando me disseram o exato dia do fim de minhas provas na faculdade na segunda semana de dezembro. Estava em uma pilha de nervos, estressada com qualquer coisa, e culpo as mesmas provas de fim de ano por isso, mas culpo ainda mais a angustia que caiu sobre mim ao notar em que mês eu me encontrava. Tentei me esquecer de tal e até obtive sucesso por um determinado período de tempo, mas quem disse que a mente inútil e desatenta passou despercebida por mim? Não, felicidade escapou por entre minhas mãos novamente.
Os amigos combinaram de comparecer ao nosso nobre local de confraternização de todo final de semana em plena segunda-feira, claro, férias, pensei eu, tenho mais é que aproveitar. Qual foi minha surpresa ao notar o centro da cidade cheio? As lojas todas abertas tarde da noite e me bateu certo sentimento de pânico. Ótimo, comércio aberto até as dez horas da noite, duas semanas pré-natal. Encostei ao banco do carro e pude me permitir afundar em melancolia. Não sou disso e me estranhei, de fato, não sou de me deixar levar por sentimentos chulos. Atrevo-me a dizer, também, que tive vontade de chorar naquele exato momento. Todas aquelas luzes coloridas, cegando-me, aquela multidão fora de suas confortáveis poltronas em seus próprios lares se privando de assistir a novela das 8. Senti-me deslocada, em outro planeta. Senti-me em um mundo só meu, em uma bolha de plástico onde a felicidade, a minha tão aclamada felicidade, não me atingia mais, e sabe de uma coisa?
Aquilo me fez sentir bem, já que na maioria do tempo sinto-me um monstro por considerar-me tão feliz, aquele falta de felicidade fez-me sentir angustiada, tudo o que eu não sentia há tempos. Solidão, remorso, tristeza, senti-me deslocada em meu próprio grupo de amigos e o melhor de tudo, fez-me sentir dor, dor que desconheço a origem. Naquele momento me senti mais humana do que nunca e soube que odiava algo, detestava algo, ou melhor dizendo, aquela determinada época do ano e, naquele momento, tive certeza de que estava preenchida pelo pior sentimento, daquele que sempre fiz questão em dizer sentir nojo: egoísmo, egotismo. Queria clamar pela minha felicidade de volta, voltar com a minha barreira e ter certeza de que tudo voltaria ao normal pra mim..., mas não queria abandonar a minha dor. Eu queria mais que tudo me sentir bem novamente e não ter que pensar em todos os meus problemas enquanto me encontrava naquela maldita fossa, um poço aparentemente sem saídas, ao mesmo tempo em que desejava me sentir como uma pessoa normal, com sua própria angustia.
Decidi-me: voltaria para o topo, felicidade, onde minha vida seguiria sem maiores danos ou arrependimentos. Mas sempre tem algo, ou alguém, pra frustrar todos os seus planos de tentar voltar ao topo. Trataram de fazer com que tudo desmoronasse, jogando marés de água salgada em minha direção enquanto eu estava prestes a voltar para o topo para comemorar todas as festividades como se não me afetasse, onde eu pretendia permanecer sentada na grama ao lado daquele poço fétido e imundo em que eu me encontrei outrora, sem desejar ou pedir muito, apenas um espaço na grama verde. Claro, eu me perguntei o porquê de terem me frustrado tanto quando eu estava tão perto de conseguir.
Eu faço as pessoas que, aparentemente, me amam se afastarem e causo mal a elas por isso, faço-as sofrerem, ao mesmo tempo em que, aparentemente, faço com que a mesma adaga que as perfuraram diversas vezes, atinjam-me justamente nos mesmos lugares, como em um reflexo no espelho. Mas eu não sinto a mesma dor.
Suporto isso tão bem que minha reação quanto ao fato passa a ser ainda pior, afeta suas mentes enquanto a minha permanece intacta e com a mesma linha de raciocínio, mas não é como se fosse proposital, é de minha natureza e permaneço ali, imóvel, sem demonstrar dor. E o que é que fazem? Confundem-me. Os sentidos, a mente. Fico sem reação e me perco no tempo e espaço.
Caio novamente, afundo no poço.
Se, deveras, procuram a pessoa ideal como presente de Natal? Não sei. Se buscam alguém pra uma vida inteira que conheça tudo sobre si, sem dúvidas e sem receios, tampouco me importa. Não sei ser feliz, não busco certezas, não sei o verdadeiro objetivo da minha vida, pra que é que estou aqui, se é pra fazer as pessoas sofrerem e aprenderem com seus próprios erros e caídas, ou se é pra, de fato, eu me foder em tudo o que se passa em minha vida, inclusive com a minha confusão e indecisão. Apesar de pensar, eu não existo; bebo, fumo demais , ajo por impulso, e com certeza não sou a pessoa certa que lhe dará algum futuro na vida.
Procura um presente de Natal pra ser a sua certeza de felicidade, hoje, amanhã e sempre, essa pessoa, com toda a certeza, não sou eu.
E sim, fui falando tudo o que sentia e necessitava dizer no momento, esse foi um desabafo em um momento de frustração em uma péssima época do ano onde as piores coisas acontecem. Se você foi esperto, não perdeu teu tempo lendo isso.

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